Episódio 01 – Posso ensinar inglês para meus filhos?

Neste episódio Marcelo Fernandes e Roberta Maldonado abordam o tema: Posso ensinar inglês para meus filhos? O que é são os Very Young Learners, existe idade para começar a aprender inglês? Existe um mundo além de Baby Shark e caso não seja fluente, os pais podem ensinar inglês para seus filhos? INSTAGRAM: @projetovyl – EMAIL: [email protected]

Episódio 1 – Como posso ensinar outra língua para meus filhos? (Transcrição)


Seja muito bem-vindo, seja muito bem-vinda ao Very Young Learners Podcast, aqui vamos mostrar que é possível ensinar inglês em casa para crianças de 3 a 6 anos.

Aqui é Marcelo Fernandes, Host do VYL Podcast, e junto comigo está Roberta Maldonado, CO-Host deste Podcast.

Roberta Maldonado é professora com experiência em ensino para crianças de 3-6 anos, educadora Montessori treinada no Montessori Centre International London e mestre em Ensino de inglês para falantes de outros idiomas na Universidade de Londres.  

Neste episódio vamos abordar o seguinte tema: posso ensinar inglês para meus filhos mesmo não sendo professor?

Roberta: Olá gente! Tudo bem? Aqui é a Roberta falando. Tudo bem, Marcelo?!

Marcelo: Tudo bem, Roberta! Vamos começar com uma primeira pergunta: O que é Very Young Learners, de onde vem e de que se alimentam? Explica para a gente o que é esse conceito.

Roberta: Esse termo Very Young Learners veio para especificar os alunos de inglês que tem menos de 6 anos, tá?! Normalmente entre 3 e 6. Com menos de 3 anos a gente chama de toddlers ou babies e com mais de 6 anos a gente chama só de Young learners que aí vai até os 12, 13 anos de idade. Isso é só pra facilitar para o professor se qualificar já que livros também vem com essa definição.

Marcelo: Mas entre 3 e 6 anos, as crianças não são muito novas para aprender outra língua?

Roberta: Olha, não mesmo! É inclusive quando elas mais aprendem, quando elas  aprendem a se comunicar na sua própria língua, que a gente chama de língua materna e é quando elas estão mais abertas pra fazer essas conexões. Afinal é quando a criança se torna bilíngue de verdade. Se você tem um pai que fala em uma língua e uma mãe que fala em outra língua é muito fácil pra criança: ela não pensa, ela não precisa se preocupar com aprender uma outra língua. Ela simplesmente se comunica.

Inclusive uma aluna uma vez me falou…ela me ouviu falando – eu trabalho em Madrid como professora, para Very Young learners, de inglês – e ela me ouviu falando em Espanhol com a mãe dela e perguntou pra mim assim “Por que você está falando com essa voz?” Eles não tem esse conceito de idiomas. Ainda está meio “mesclado” para eles mas sim, aprendem com muita facilidade. O importante é ter propósito. A criança não aprende porque vai ser bom para o futuro, nada disso! Ela aprende porque ela quer brincar com aquela pessoa que está falando aquela língua.

Marcelo: Mas… eu sou pai, não sei inglês… mesmo assim eu posso ensinar meus filhos? Porque eu até acho que seria uma atividade interessante para você ter em família? E até porque eu imagino que se os pais não tenham conhecimento da língua inglesa (ou outra língua) pode ser uma atividade em família que os dois vão aprender juntos. Toda a família: os pais e as crianças.

Roberta: Sim, pode sim. Mas é interessante que os pais se planejem antes de apresentar para os filhos o novo vocabulário ou o novo jogo. É importante que ele tenha domínio para que ele tenha mais tranquilidade. Porque o adulto, diferente da criança, tem mais orgulho, tem medo de cometer erros e a gente não quer que o pai ou a mãe- ou qualquer que seja o familiar que vai ensinar inglês para a criança- passe pra elas erros de pronúncia, por exemplo. Não tem problema sotaque, essa coisa toda não atrapalha a comunicação, gente. A gente não precisa ficar ligado a isso mas, é interessante, eu recomendo que você tenha um nível de pelo menos B1 – nessa framework europeia onde A1 é o iniciante, A2 já está mais independente, B1 já se comunica bem, B2 é aquele que faz o First Certificate que é um nível que já dá para você estudar e trabalhar em inglês; e aí vem o C1 e o C2 que são proficientes. Mas se você tiver um B1 você já está mais que equipado pra ensinar inglês (básico) pra outra pessoa, especialmente para o seu filho pequeno. Desde que você se prepare.

Marcelo: Estive lendo alguns artigos na internet, assistindo alguns vídeos, a maioria ensina você a colocar um desenho animado, colocar uma música (em inglês). Mas eu penso que, com isso, você esteja simplesmente forçando seu filho a ser “autodidata” em outra língua. Você vai colocá-lo na frente de uma tela e vai esperar que ele absorva este conteúdo sozinho. Não tem como criar algo mais interativo? Algo em que os pais possam ser mais participativos? Existe um mundo além do Baby Shark, eu imagino…

Roberta: Existe sim. Mas eu não julgo de maneira nenhuma o pai ou a mãe que acreditam que se a criança vai ter um tempo com a tela, com o tablet,  na televisão, que seja vendo coisas em inglês porque aí pelo menos ele já está se familiarizando com a língua. Eu acho isso muito válido. Agora sim, é interessante que você também aprenda as músicas. Que você dance e cante com ele. A gente precisa lembrar que a criança aprende de uma forma multissensorial. Dificilmente, se você apresentar uma coisa para a criança só o aspecto visual… (não funciona). Você precisa juntar tudo: escuta uma música com ela, aprende a coreografia da música, canta com ela mais adiante, pede a ela pra completar a música…tenta juntar tudo. Se vocês estiverem na rua e encontrarem alguma “flower” que tem em alguma musiquinha você pode mostrar pra ela e cantar. Assim você está sempre correlacionando todos os sentidos. Isso facilita muito para a criança lembrar, memorizar e levar isso com ela para sempre. Para a criança fica tudo “na malha”…o conhecimento… ela não filtra muito o conhecimento. Mas para que aquilo faça parte dela, vire realmente um item de seu conhecimento, ela precisa vivenciar isso. Ela precisa experimentar. Não basta que você ensine. Essa é a principal diferença entre crianças e adultos. E para os Very Young Learners isso é ainda mais forte.

Marcelo: Imagino que você tenha que brincar mais do que dar uma aula. Você não vai dar uma aula para o seu filho. Você vai, simplesmente, brincar com ele, correto?

Roberta: Brincar com ele em inglês. Não existe “dar aula pra criança”. Você não se senta com a criança e é o centro das atenções. Não. Você é um facilitador. Você apresenta um novo item de vocabulário, brinca com ele, testa a memória dele, e fica muito atento para ver o que está fazendo sucesso. Se ele não estiver se divertindo, esqueça: ele não está aprendendo. E pelo contrário: você está criando um clima tenso. E isso é muito comum, gente, porque maternidade, paternidade (geralmente) vem com uma culpa “eu não estou fazendo o suficiente”, “será que eu estou fazendo isso bem?” mas você pode ter certeza de uma coisa: o seu filho, especialmente nessa idade, ele não te julga. Qualquer tempo que você está com ele, seja aprendendo inglês ou brincando de qualquer outra coisa é muito precioso. E ele está aberto. E é por isso que eu acho que pais e parentes próximos e cuidadores são os melhores professores para crianças dessa idade.

Marcelo: Outra pergunta, Roberta: Se a criança tem dificuldade na língua materna, vamos dizer no português, ensinar outra língua para essa criança não vai a estar prejudicando de alguma forma? 

Roberta: Olha, essa é uma questão extremamente delicada. Primeiramente: o que é dificuldade na língua materna? A gente sabe que a criança com 3, 4, 5, 6 anos tem o vocabulário limitado, ela ainda tem dificuldades de articulação, o aparelho fonador está se formando, alguns vão ter a linguinha presa…essas coisas são comuns nessa fase e muitas delas não são necessariamente dificuldade com a língua materna. Pelo contrário, se você pensar na quantidade de palavras que a criança aprende nesses primeiros anos de vida…é um absurdo, é um salto! Mas claro, você deve ficar muito atento para ver se você está causando mais confusão do que diversão. Por exemplo: essa confusão é uma coisa comum entre crianças bilingues, que estão sendo educadas nas duas línguas. Uma criança que está num país diferente, um país de língua inglesa cujos pais sejam brasileiros. Eles falam português com ela em casa, ela vai para a escola, chega em casa e as vezes mistura um pouco as línguas. Por que? Muitas vezes ela aprendeu um item novo de vocabulário, o nome de um novo brinquedo na escola que ela nunca tinha visto em casa! Então quando ela vai contar o caso para os pais ela usa o termo em inglês. Isso nada mais é – eu acho- um barato, é um sucesso, se você pensar… porque a criança agora tem duas caixinhas de onde ela pode pegar o que precisa, ela tem duas línguas, duas caixas de ferramentas. E é comum sim a criança confundir quando o mesmo membro da família fala em duas línguas com ela. Por isso é que eu acho muito importante que o horário, o momento de falar inglês seja bem definido…para que ele, ou ela, entenda…

Marcelo: Porque criança gosta de rotina, né?

Roberta: Criança precisa de rotina. E elas crescem muito com isso. Porque dentro delas, está um caos total. Tem muita mãe que reclama “nossa, com dois anos a criança parece que está passando pela adolescência. É a adolescência da infância- me perdoem se essa é uma maneira vulgar de falar- mas é isso: a criança está passando por tantas mudanças que ela sente um caos…ela está sentindo novas sensações que ela nunca sentiu antes, aquilo está muito diferente…ela sofre, ela sofre simplesmente por estar crescendo. E o caos de dentro é amenizado com a rotina fora. Se ela sabe o que vem depois, ela fica mais tranquila, ela se sente mais no controle. Daí que vem a necessidade da gente ter rotina ,da criança saber o que vem depois…ela cria uma expectativa muitas vezes muito positiva “ah, nós vamos brincar de inglês amanhã” ou “todos os dias, de tal a tal hora”…” ah eu tenho um ursinho que só fala em inglês- detalhes importantes de como facilitar essa transição de uma língua para outra sem confundir a criança. Agora, não ensinar por medo da confusão eu acho um grande desperdício. Acho que é um risco que vale a pena correr. Porque mais na frente, com certeza, ela vai diferenciar bem.

Marcelo: E eu imagino que muitos pais por essa falta de confiança ou por achar que precise ser um super professor para ensinar inglês para os filhos, procurem uma escola de idiomas e, é claro, vai fazer bem essa aula, viver novas experiências… mas é importante frisar que você não precisa ser um professor para ensinar uma língua para o seu filho.

Roberta: Não precisa ter esse medo. É muito importante lembrar que nessa idade, para a criança poder aprender qualquer coisa ela precisa estar muito à vontade. Ela precisa ter uma conexão emocional com o facilitador- com a pessoa que está ali ensinando, apresentando para ela aquele vocabulário, aquelas expressões, aquela canção, seja o que for. Nós professores ficamos semanas desenvolvendo essa conexão emocional com a criança para que ela se sinta a vontade e para que você a conheça. Então tem alunos meus que, depois de algum tempo eu já começo a perceber perfeitamente se ele dormiu bem, se ele está com sede, ele já não precisa mais nem falar porque a gente começa a conhecer as crianças. Mas imagine: eu passo com eles, no máximo, duas horas semanais. Você pai, mãe, babá, a madrinha, os avós, eles estão com a criança muito mais tempo, já as conhecem desde de cedo, já sabem quando ela não está interessada numa atividade. Sabem de que ela gosta. Isso facilita muito você pensar os conteúdos que você vai apresentar para ela. As brincadeiras que você vai dividir com ela.

Marcelo: Então é isso. Esse foi o nosso primeiro episódio, do nosso Very Young Learners Podcast. Roberta, você gostaria de adicionar alguma coisa?

Roberta: Eu quero agradecer a oportunidade, agradecer a quem teve esse tempo, parou para ouvir e parabeniza-los: eu acho que ser pai e mãe é uma coisa maravilhosa, é uma responsabilidade gigantesca, dizer que eu estou aqui é para dar uma força mesmo, é uma comunidade que cria uma criança, né?!

Marcelo: Com certeza. Muito obrigado a todos, todas segundas-feiras, estaremos trazendo um novo episódio do nosso podcast e, se quiserem entrar em contato, podem enviar um e-mail a [email protected] e seguir a Roberta no Instagram. @maldonadoroberta, pode enviar dúvidas, e sugestões. 

 Muito obrigado e até mais!